segunda-feira, 4 de agosto de 2008

A Escolha de Honorato

Estava impecável quando adentrou sua carruagem. Todo de preto. Calças, paletó e sobretudo, além de sua bengala, de mão prateada em forma de cabeça de cavalo e de sua irretocável cartola negra. Aprumou-se em seu assento, pernas afastadas, pés firmes no chão com as duas mãos apoiadas sobre a bengala, uma sobre a outra. Honorato era um homem notável, sempre conquistando o respeito e a admiração de todos a sua volta . Tinha um porte de um homem comum, não era baixo nem alto, nem gordo nem magro, diferenciava-se por outros atributos. Sempre foi conhecido por sua correção, tanto na vida pessoal quanto no trabalho. Cumpria seus compromissos de forma religiosa, sua vida funcionava como um relógio. Não bebia ou fumava, nas ocasiões em que se encontrava com seus amigos refastelava-se em xícaras e mais xícaras de chá, dessas sim Honorato fazia uso abusivo.

Não se tinha notícias de sua família, somente se sabia que ele viera de um cidade do interior para estudar na capital, ficando neste período hospedado na casa de um tio, que morreu no mesmo ano que Honorato começou seu curso de direito. Desde então passou a morar sozinho em um pequeno quarto alugado que pagava com seu salário de tradutor, já que com dezesseis anos já havia aprendido, por conta própria, a língua inglesa. A partir daí sua trajetória foi meteórica. Na metade de sua graduação já dava aulas particulares de inglês e direito, cobrando por elas um bom preço. Se destacava de todos seus colegas e logo após se formar já trabalhava como assessor de um notório político local. Seguiu então dois caminhos paralelos, a docência e a política, atuando brilhantemente em ambas as frentes. Uma dentre suas qualidades se destacava, era um excepcional orador. Sua vida política teria um futuro exuberante não fosse a surpresa que o destino lhe reservara. Há pouco mais de oito meses Honorato foi diagnosticado com um tumor na traquéia. A notícia a princípio não o abalou tanto. Pensava que poderia resolver a questão com algum tratamento intensivo ou algo do tipo, já que seus sintomas não lhe causavam dor, apenas um pigarro esporádico e alguns ataques de tosse. Logo após o diagnóstico afastou-se de suas atividades para se internar, mas logo percebeu que seu problema não era tão simples, e que neste período a doença havia avançado, com seus sintomas se tornando muito mais agudos.

Retomou então o trabalho como se nada lhe afetasse. Suas tosses, porém, se tornaram mais constantes e fortes, sua voz falhava durante suas aulas e discursos, e acima de tudo, começou a sentir dor. Todo esse quadro avançava mês a mês. Até que tomou a decisão de se afastar de seu cargo de professor e pedir uma licença de seu posto político. Há uma semana já não conseguia expressar uma palavra sequer sem ser acometido por uma forte pontada de dor, seguida de uma forte tosse que lhe fazia doer mais ainda.

Esta noite Honorato seguia para uma cerimônia de homenagem, na qual seria contemplado com o título de cidadão honorário e receberia uma medalha de excelência em serviços prestados à sociedade.

Chegando no salão foi acolhido com uma fervorosa salva de palmas. Reconhecia nos olhares sentimentos diversos, compaixão, desdém, tristeza, inveja, estranhamento, cinismo...Seu ar era um tanto estranho naquele momento. Portava-se com a altivez típica, mas seu olhar repetidamente vacilava, visitando o chão, as mãos e muitas vezes o nada. Poucos minutos após sua chegada foi convidado a ocupar uma cadeira no púlpito do lado esquerdo e logo deu-se início à cerimônia. Um longo texto remontando sua trajetória política, seus méritos e virtudes foi lido, sem pressa, pelo próprio presidente da câmara, sendo em cada pausa interrompido por mais salvas de palmas. Ao fim da leitura foi chamado a se levantar para receber a medalha e o diploma. Honorato parecia não mais estar ali. Seu rosto esboçava um sorriso visivelmente forçado, seus olhos estavam completamente anuviados, sua respiração curta e ofegante. Atravessou, apesar disso, toda a cerimônia firme como uma rocha.

Após alguns minutos recebendo cumprimentos pessoalmente, com as bebidas e comidas circulando pelo salão, Honorato pede licença e se retira da maneira mais discreta possível do meio de seus colegas.

Um disparo. O corpo do homenageado sem vida no chão do jardim. Na mão direita uma pequena pistola preta, na esquerda, a bengala. No dia seguinte, sobre a escrivaninha de seu escritório, uma carta.

Caros amigos e colegas,
escrevo-lhes para me despedir, apesar de já ter partido quando tiverem esta carta em mãos. Os últimos meses têm sido insuportáveis para mim. Desde a semana passada já não consigo proferir uma palavra sequer e os médicos não são otimistas quanto a reversão deste quadro. Durante minha internação acabei por conhecer um senhor um pouco mais velho que eu, que afetado pela minha mesma patologia, veio a falecer há alguns dias atrás. As dores têm sido tanto mais intensas quanto mais constantes, os medicamentos para controlá-las parecem estarem perdendo a luta contra o avanço da enfermidade. Gostaria de deixar claro que minha decisão é a de um homem lúcido que considera que manter-se vivo a qualquer custo não é um possibilidade. Como vocês bem sabem, minha vida é meu trabalho. Não casei ou tive filhos, pois meu trabalho sempre foi responsável pela atração de quase todo meu afeto. Por conta dele construí tudo o que tenho, minhas casas, meus bens materiais, minhas melhores amizades, minhas viagens ao estrangeiro, assim como minha reputação. Eu não saberia quem sou sem poder viver para o meu trabalho. Sendo assim prefiro definitivamente deixar de ser de forma radical a me tornar apenas um corpo enfermo nas mãos de médicos experimentadores. Se não servi aos lençóis tão bem como amante me recuso a servi-los agora como doente. Fosse o caso de minha patologia comprometer outras partes de meu corpo, talvez meu destino pudesse ser outro, mas estou resignado apesar do extremo sofrimento que me afeta, tanto física como espiritualmente, sei que prorrogar minha vida é estender à minha derrocada o tapete, para que avance a ponto de nada mais me restar. Prefiro sair de forma súbita e consciente, deixando nas memórias de vocês uma imagem mais próxima do que consideraria a ideal. Estarei hoje recebendo um homenagem que acredito ser uma demonstração de comiseração, o que eu repudio profundamente, mas sei que todos vocês também precisam exorcizar a presença de minha morte que se anuncia e que um ritual para isso acaba caindo muito bem. Para que não haja nenhum mal-entendido, descreverei brevemente meus planos. Ao terminar de escrever esta carta, rumarei para a frente de minha casa, aonde o cocheiro já estará me aguardando para seguir em direção ao salão cerimonial da câmara. Chegando lá seguirei todos os protocolos da homenagem, receberei a medalha de honra assim como todos os cumprimentos de vocês, meus colegas. Em algum momento deixarei o salão principal e rumarei para o jardim. Nesta hora, de meu bolso interno do paletó, sacarei meu último remédio, aquele que irá garantir que eu não perca mais nenhum traço daquilo que, com tanto amor, construí ao longo de minha vida. Que meu corpo caia só, para que meu espírito reste firme de pé.

De mão firme e coração trêmulo,
Francisco Honorato.

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